quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Mar de possibilidades (Tony Lopes)


Antes do barco afundar

Coloque o colete salva-vidas

E se jogue no mar

Das tolas possibilidades

 

Antes da balsa virar

Revire as gavetas e procure

Por alguma coisa vulgar

Que possa ser aproveitável

 

Não se engane

Não é doce morrer no mar

Nem se assuste

A cuca não vai lhe pegar

 

Depois do barco afundar

Deixe o seu corpo seguir

No leve balanço do mar

Das inevitáveis possibilidades

 

Depois da balsa virar

Esqueça-se do que ficou

E reinvente seu navegar

Ate então tão tolo e imprestável


 

Não se engane

Não é doce morrer no mar

Nem se assuste

Alguma ilha irá lhe abrigar

 

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Doce Dulce (Tony Lopes)

 
De tão doce Irmã Dulce desce como uma prece.

 

Tão firme na sua gentileza

Desfaz o ódio com delicadeza

Arrancando dos corações impuros

A força que cura e derruba muros.

 

- Dos incrédulos nada a declarar

Se eles olham, veem e não querem acreditar.

 

Tal como uma estrela errante

Que ousa brilhar pros mais distantes

Ela segue sua linha de luz

Carregando em seu frágil corpo uma pesada cruz.

 

- Dos descrentes nada a esperar

Se eles sabem, veem e se recusam a ajudar.

 

De tão doce Irmã Dulce agradece até a quem não merece

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Nossa selva (Tony Lopes)


 Os animais selvagens vagueiam pela imensidão do mundo que lhes cabe

(É um mundo pequeno, Restrito e Inadequado)

Mas eles na sua dócil ignorância apenas seguem seus instintos.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Pecado perfeito (Tony Lopes)

 
Um instante, por favor


Porque agora preciso sair

Hoje já tenho a rota traçada

Tenho tempo e motivo para dar uma escapada

 

Um momento, por favor

Que eu vou ali te trair

Hoje tenho a desculpa perfeita

Tenho um álibi acima de qualquer suspeita

 

E amanhã de manhã quando eu voltar

Espero te encontrar um pouco mais sã

Sentido na boca o gostinho da maçã

 

Um segundo, por favor

Que o pior ainda está por vir

Se o antidoto do veneno fizer efeito

Finalmente vou concretizar o pecado perfeito.

 

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Acerto de contas (Tony Lopes)


Sei que cometi muitos pecados
E muitos outros ainda irei cometer

Sei que vou travar novas batalhas

Antes de finalmente me arrepender

 

Sei que não sou um bom exemplo

Mesmo sabendo jogar e perder

E dos tantos equívocos que me meti

Em quase nenhum pude reverter

 

Mas se amanhã o meu tempo acabar

Sei que sempre fiz o que pude     

Deixo cravado em alguns corações

Um pouco da minha atitude

 

E se não sou totalmente santo

O diabo sei que também não sou

Enxugo de leve o meu pranto

E calado simplesmente me vou

 

 

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Saudades (Tony Lopes)



Teu fantasma ainda habita o meu quarto

Teu cheiro ainda esta nos lençóis

Teu gosto ainda esta na minha boca

Teu gemido ainda ecoa aqui

Agora não tenho mais duvidas:
 
você morreu.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Medo (Tony Lopes)

Medo não se mede  Medo se tem

Medo não procede  Medo vem.


Medo do que se vê 

Medo que não se vê

Medo que começa cedo

Medo que segue além.

 
Medo não se diz    Medo não se fala

Medo não se grita  Medo não se cala.

 
Medo não se pede

Medo não faz bem

Medo que se sucede

A outro medo que vem.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Esgoto (Tony Lopes)


Esgoto esta cidade é um grande esgoto

Com sua boca banguela aberta

Com sua ânsia insana de engolir merda

 

Esgoto esta cidade é um grande esgoto

Alimentada pela escoria que vomita suas vergonhas

Nas entranhas escancaradas deste esgoto.

Esgoto esta cidade é um grande esgoto

Fruto do desperdício e da miséria

Que assola esse povinho tão escroto.

 

Esgoto esta cidade é um grande esgoto

Com sua barriga inchada e cheia de vermes

Com sua alma a perecer no sol a pino

 

Esgoto esta cidade é um grande esgoto

Habitada por parasitas insatisfeitos

Que se abastecem de restos deste mesmo esgoto.

Esgoto esta cidade é um grande esgoto

Resultado da inercia e do descaso

Dos que dançam suas musicas de gosto duvidoso

 

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Cuidado! O perigo está em você (Tony Lopes)


O demônio esta nos seus olhos e você não vê

Esta dentro do seu peito alojado em você

O pecado está nos seus atos mais simples e banais

Está do lado dos fatos aparentemente normais.

Cuidado! O perigo é você.


A raiva está na sua saliva e você não sente

Nos seus lábios que de tão sábios pressente

Que é essa ira irracional o seu maior pesadelo

Mas como fugir do que se é sem sê-lo?

Cuidado! O perigo é você.


O pavio esta ligado ao seu vacilante coração

E o vazio aglutina dentro de si uma assombração

No espelho seu reflexo é sua pior sina

Temerário ao medo que sempre se aproxima

Cuidado! O perigo é você.

ps. ilustração by Nelson Magalhães Filho

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Perdido (Tony Lopes)

Não tenho mais para onde olhar

As planícies sumiram...

 

Longe dos meus dedos sujos

E da minha sede

Apenas um deserto enorme

Repleto de pesadelos

Que avançam com suas rodas

E apetite voraz.

 

Não tenho mais para onde ir

As ruas encolheram...

 

Perto das minhas unhas podres

E da minha fome

Apenas um barulho gigante

Abotoado ate o pescoço

Como uma camisa de força

A me deter.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Não vale nada (Tony Lopes)

A minha vida não vale um filme

Nem um livro

Ela não vale uma musica

Nem um poema

A minha vida não vale nada.

A minha vida não vale um romance

Nem uma comedia

Ela não vale um comentário

Nem um rabisco

A minha vida não vale nada.

A minha vida não tem roteiro

Nem métrica

Ela não tem melodia

Nem tem rascunho

A minha vida não vale nada.

A minha vida não vale um centavo

Nem um trocado

Ela não tem preço

Não esta tabelada

A minha vida não vale nada.

A minha vida não vale um beijo

Nem um abraço

Ela não vale um adeus

Nem um aceno

A minha vida não vale nada.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Cara do cara (Tony Lopes)



 A cara do cara dá de cara com a cara do cara no espelho fosco

De cara com a cara do cara que aparece quase clara no espelho tosco

Repara de cara que a cara do cara que reflete na cara do cara

Não rara é a cara do cara que repara a cara do cara no espelho torto

E nada que a cara do cara repara reflete a cara do cara que dispara

Na cara do cara que não para de olhar a cara do cara no espelho morto

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Depois do fim (Tony Lopes)


Vejo logo ali depois daquele prédio velho indícios do fim

Entre escombros e restos estão guardados os segredos

Que pouco a pouco irão se revelar.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Tempestade (Tony Lopes)


Onde você estava naquela tempestade

Em que lugar nenhum era seguro

De quem eram aqueles braços que te aqueceram

No meio daquele tempo escuro

 

Se a chuva inundou toda a cidade

Imagine o estrago que minhas lagrimas causaram

Se o medo se infiltrou como verdade

Imagine o mal e a dor que a sua ausência provocaram

 

Onde você deixou sua vaidade

Pra fingir não ser você quem se importa

De quem são as botas que te levaram

Para tão distante da minha porta

 

Se a chuva alagou o meu coração

E misturou a dor com a solidão

Me diz pra quem são teus olhares quentes

Que antes sempre estavam tão presentes

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Peixes que brigam (Tony Lopes)

Adoro peixes que brigam
Em aquários repletos de saídas estranhas
E de curvas perigosas.
Adoro peixes que brigam
Em auditórios cheios de imbecis
E de pessoas asquerosas e sordidas.
Adoro peixes que brigam
Sem medo de enfrentar as cores e o caos
Com seus olhos envidraçados.
Adoro peixes que brigam
E vivem no limite exato do prazer e do ódio
E seguem nadando contra a corrente.
 

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Coisas (Tony Lopes)

 
Tem coisas que não sei
 
Outras que esqueci
 
Algumas nem lembrei
 
E todas tem um talvez.
 

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Quem é você? (Tony Lopes)


Para que serve um canalha

E um déspota?

Pra que serve um calhorda

E um escroque?

E você?

Pra que você serve????

 

Para que serve um herói

E um bom moço?

Pra que serve um padre

E um crente?

E você?

Pra que você serve?

 

Quem você acha que é um canalha?

Quem você acha que é um déspota?

Quem você acha que é um calhorda?

Quem você acha que é um escroque????

E você?

Você é algum desses???

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Mal maior (Tony Lopes)

Por onde andam as baratas que não as vejo mais
Mesmo quando deixo sobras de comida pelo chão
Onde estão os ratos que saiam sorrateiramente dos buracos
Ao menor sinal de um restinho de queijo
- Parece que eles me deixaram só a esperar pelo fim dos dias.
 
Por andam as formigas que habitavam o pote de açúcar
E corriam distraidamente pela mesa do jantar
Onde estão as moscas impertinentes que voavam ao nosso redor
E depois pousavam sem cerimonia no nosso prato
- Parece que eles me deixaram só a refletir sobre o futuro.
 
E não me venham falar de homens muito parecidos com insetos
De pessoas que agem como se fossem ratos
E que rodopiam como dançarinos loucos na nossa frente
 
Eu sinto falta dos animais rastejantes e minúsculos
Que apenas nos faziam temer o escuro da noite
Como se não houvesse um mal maior.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Dias escuros (Tony Lopes)

Num céu azul claro

Um risco negro define a direção

(Não mais gaivotas

Ou aves de rara beleza)

Agora são as nuvens densas

Que navegam sobre nossas cabeças

Deixando pistas e rastros

De destruição e dor.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Excomungado (Tony Lopes)

Sou um excomungado
da sua religião
e a fé eu encontro
em alguma liquidação
mas a minha alma já tem preço
é só pagar mais de um milhão
 
sou um excomungado
sem direito a oração
mesmo de joelhos
nunca obtive o perdão
mas a minha alma já tem jeito
é só pagar mais de um milhão
 
diga qual é a sua crença
e quanto custa a salvação
vendo minha alma pro diabo
e compro a paz da sua religião
mas não precisa ter muita pressa
para pecar e ter satisfação.
 
 
 
 
 
 
 

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Éter (Tony Lopes)


E t e r n a m e n t e

Como

Éter    

Na

Mente

Avançando

Destruindo

Levando        

Ao

Profundo       

Inconsciente.

 

E t e r n a m e n t e

Como

Éter

Na

Mente

Esboçando

Denegrindo

Vingando

Invadindo

Inconseqüente.

 

E no cérebro feito uma nave errante

Perfurando as fronteiras do instante

 

E t e r n a m e n t e

Como

Éter

Na

Mente

Ignorando

Desviando

Refazendo

Arrancando

A

Corrente.

 

E t e r n a m e n t e

Como

Éter

Na

Mente

Evaporando

Despistando

Iludindo

E

Apagando

Sua

Mente.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

O silencio (Tony Lopes)

O silencio
Companheiro de noites & dias calmos
Senhor das verdades
Mestre dos ignorantes.
 
O silencio
Companheiro de vitorias & derrotas
Senhor da justiça
Juiz dos imparciais.
 
O silencio
A medida certa do que é necessário
A dose exata do veneno & do antidoto
O dono da certeza.
 
O silencio
Essa linha tênue que separa
O momento
Em partes elegantemente desiguais.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Sem muros (Tony Lopes












Aonde irei lutar agora

Se não há mais muros para derrubar

Nem inimigos para extinguir

 

Aonde devo combater agora

Se não há opositores a minha lei

Ou a minha fé

 

Quem preciso destruir agora

Se todos sucumbiram a minha espada

E sangraram derrotados

 

Quem necessito oprimir agora

Se todos foram totalmente aniquilados

E agora oram ajoelhados

 

 Eu venci

Agora eu sou a lei

Só lhe resta uma escolha:

Obedecer.

 

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Cinza (Tony Lopes)


A velocidade do beijo corta a noite em pedaços desiguais

Feito carne de segunda em plena terça-feira pela manhã

E o sorriso da menina já não mais tão doce como uma maçã

Invade a calma da alucinação em raios flamejantes e azuis.

 

A paixão se insinua algumas vezes vestida de cinza

E em outras vezes totalmente nua e cintilante

E os versos controversos do poeta solitário ecoa

Em uma pagina em branco da sua mais tola sensação

 

Pássaros gigantes riscam a paisagem escurecida daquela madrugada fria

E eles, os dois perdidos numa noite imunda riem de quase tudo

Sem saber de nada sobre o amanhã que virá como uma tempestade

Cheia de raios com cores e odores que farão lembrar o passado

 

E no fim das chuvas e trovões só restara à certeza e nada além

Como retratos amarelados de um tempo que se foi

Sem deixar pistas om indícios de que realmente aconteceu

Naquela e em outras noites totalmente cinza.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Bem mais fácil (Tony Lopes)

É muito fácil admitir os erros depois de cometê-los
Eu quero ver admiti-los antes de cometê-los
Ai sim seria bem mais fácil perdoar
 
É muito fácil assumir os próprios erros
Eu quero ver você assumir os meus
Ai sim seria bem mais fácil te entender
 
É muito fácil sorrir do que acha engraçado
Eu quero ver você sorrir por estar enganado
E ai sim seria bem mais fácil rir
 
É muito fácil chorar quando se é magoado
Eu quero ver você chorar pelos meus pecados
Ai sim seria bem mais fácil perdoa-lo